Classes sociais têm visões diferentes da qualidade de vida, aponta pesquisa

Estudo feito pelo Procon foi apresentado durante seminário sobre defesa do consumidor
08/11/2001 16:55

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A qualidade de vida pode estar representada num frasco de remédio, num automóvel, na auto-realização. Essa amplitude de possibilidades foi apontada em pesquisa qualitativa feita pela Fundação Procon e apresentada na manhã desta quinta-feira, 8/11, durante o painel "Consumo e Qualidade de Vida", como parte do 17º Encontro de Defesa do Consumidor do Estado de São Paulo, que está sendo realizado na Assembléia Legislativa.

Foram ouvidas 55 pessoas, 15 de cada uma das classes D/E, C, B e A. Elas concordaram ao apontar, como entraves à qualidade de vida, a falta de tempo para lazer e convivência e o medo da violência. Outro consenso: o acesso ao consumo de bens e serviços é condição para uma vida adequada.

Na apresentação dos resultados da pesquisa, a diretora de Estudos e Pesquisas do Procon, Vera Marta Junqueira, mostrou que, nas classes D/E, a idéia de qualidade de vida associa-se ao acesso a alimentos e remédios, por exemplo, enquanto na classe C ela está ligada também à posse de um automóvel. "Aqui começa a ficar difícil estabelecer onde termina a necessidade e onde começa o desejo", avaliou Vera. Entre os entrevistados da classe A, por outro lado, a noção vai além da posse de bens de consumo - provavelmente já garantida -, para ligar-se a expectativas de realização pessoal, paz de espírito e liberdade.

Para a classe B, essenciais à qualidade de vida são a posse de casa própria, instrução em escola particular, viajar e freqüentar academias de ginástica, entre outros. Mas eles reclamam também da necessidade de ter que brigar para fazer valer seus direitos, o que exige mais fiscalização dos serviços públicos e privados.

/N+/Fiscalização e ética/N-/

A importância da fiscalização foi destacada por Adejayr Ciro Trigo, superintendente do Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo (Ipem), órgão ligado ao Inmetro. Ele exemplificou: a falta de 50 gramas em cada um dos pacotes de 5 quilos de arroz e de feijão que formam uma cesta básica totalizaria, em um ano, 67 mil toneladas - o suficiente para suprir 2,68 milhões de cestas básicas.

Trigo destacou, entre os trabalhos do Ipem, a fiscalização e certificação de fabricantes de preservativos masculinos - "hoje o Brasil fabrica um dos melhores preservativos, e isso se deve a uma importante pressão do Idec" -, do setor têxtil e de brinquedos. "É preciso avançar nos trabalhos de certificação, já que a batalha pela fiscalização enfrenta muitas dificuldades", avaliou o mediador do painel, deputado Arnaldo Jardim (PPS).

"Mas o conceito de qualidade de vida, que tem nuances ideológicos e não é homogêneo, não se restringe à posse de objetos", contrapôs a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo Flávia Schilling. Para ela, é possível adotar a qualidade de vida como eixo orientador do debate sobre os direitos do consumidor. "Mas isso exige uma discussão coletiva", afirmou.

A idéia de que o consumo irrestrito leva à qualidade de vida "é, sem dúvida, um dos grandes fatores da violência e da criminalidade", completou o advogado Belisário dos Santos Júnior, que foi secretário da Justiça no governo Mário Covas. Para ele, é preciso ter uma visão que integre os direitos individuais aos coletivos. "Do contrário, vamos descobrir no fim que a conquista individual é apenas um começo", disse.

O encontro sobre defesa do consumidor, que assinala os 25 anos do Procon e os dez do Código de Defesa do Consumidor, continua à tarde, com um painel sobre novas tecnologias e segurança.

alesp