Comissão da Verdade aborda caso de dois militantes da ALN

Testemunha traz informação inédita sobre destino dos desaparecidos até hoje
09/12/2013 21:07 | Da Redação Fotos: Maurício Garcia

Suzana Lisboa e Adriano Diogo<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-12-2013/fg157108.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT), tratou, nesta segunda-feira, 9/12, em sua 104ª audiência pública, dos casos dos desaparecidos políticos Issami Nakamura Okano e Ieda Santos Delgado, ambos militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Suzana Lisboa, que foi relatora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, falou sobre os casos, ressalvando que possui poucas informações sobre Issami. Sobre Ieda, lembrou aspectos sobre sua vida profissional e política. "Era uma mulher culta que vivia o cotidiano da ditadura com todas as suas dificuldades", observou.

Suzana também relatou conversas que teve com Claudio Guerra, ex-delegado do Dops e autor do livro Memórias de uma guerra suja, em que revela ter assassinado, enterrado e, em alguns casos, incinerado presos políticos da ditadura. Ele revelou que tinha conhecimento do fato de Ieda ter sido torturada, morta e enterrada e que supunha que Issami tivera o mesmo destino. Os dois casos não constam no livro, tornando tal informação inédita.

A importância da atuação dos familiares das vítimas da ditadura foi enfatizada por Suzana, e, quanto a isso, a mãe de Ieda foi exemplar. Muitas vezes, acrescentou, o fato de as famílias se recusarem a falar dificulta o processo de investigação. "A família é nosso maior aliado na busca da verdade sobre os desaparecidos", concluiu.

Ieda e Issami

Bacharel em ciência jurídicas e sociais, Ieda era funcionária do Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério das Minas e Energia. Em 11/4/1974, viajou para São Paulo no feriado da Semana Santa para buscar passaportes para um casal de militantes da ALN que precisava sair do país.

Quatro dias depois, sua mãe recebeu um telefonema anônimo informando que a filha teria sido presa pelo Dops/SP e começou intensa busca em quartéis, delegacias, DOI-Codi, Dops, hospitais e IML. Foram contratados vários advogados.

Aconselhada a procurar amigos influentes, a mãe de Ieda, por intermédio de um general, obteve a seguinte resposta do então chefe do SNI, João Baptista Figueiredo: "Ieda era um elemento perigoso e deve estar foragida". Depois disso, recebeu telefonemas e cartas que tentavam fazer crer que a filha estava viva. Ieda permanece desaparecida até hoje.

Issami estudava química na USP onde se tornou assistente de laboratório do Departamento de Engenharia Química e no Instituto de Física. Lá, iniciou atividade política integrando o movimento estudantil. Foi preso em setembro ou outubro de 1969 e condenado a dois anos de reclusão. Cumpriu pena no presídio Tiradentes e foi libertado em outubro de 1972.

Em consequência do trabalho de infiltração do médico João Henrique Ferreira de Carvalho, apelidado pelo DOI-Codi/SP de Jota, Issami foi novamente preso e está desaparecido até hoje. Segundo Marival Dias Chaves do Canto, ex-agente do DOI-Codi/SP, em entrevista à revista Veja publicada em 1992, a atuação de Jota permitiu a eliminação de pelo menos 20 pessoas, entre elas Issami.