Opinião: Temer segue limpando estilhaços


07/06/2016 16:30 | Márcia Lia*


As primeiras votações na Câmara dos Deputados sob o governo interino do Brasil indicam a execução de um roteiro previsível, direcionado, e que vai - apressadamente - na contramão dos interesses da maioria dos brasileiros. As tais "pautas-bombas" regidas pelo então presidente da Casa, Eduardo Cunha, e que paralisaram o governo da presidenta Dilma, começam a ser votadas e aprovadas conforme acordo com o presidente interino, sem qualquer compromisso com o ajuste fiscal e com a austeridade defendidos antes da remoção da presidenta. Temer vai recuar?

E se de fato a situação do país é tão grave quanto difundida pela então oposição, fica incompreensível a proposta de criação de 14 mil cargos na administração pública e a geração de um déficit brutal com o reajuste pontual de setores do funcionalismo. Óbvio que não se é contra reajuste salarial que reponha perdas inflacionárias e que contemple ganhos reais, mas é preciso aplicar isonomia a todas as categorias do funcionalismo, e isso seria uma insanidade administrativa num momento de crise econômica interna e externa e de profunda instabilidade política no Brasil.

Vê-se que o acordo do grupo que se acomodou no Planalto escorado em um impeachment injusto tem um alto custo para o povo brasileiro. E quem está sendo enquadrado no ajuste fiscal do governo Temer são os trabalhadores, os estudantes, os aposentados e os programas de inclusão social. Não há proposta de ajuste fiscal consistente.

Todo o apoio a este governo no Congresso, no Judiciário, na mídia e até mesmo em setores externos, não tem sido suficiente para que se vislumbre que a retirada de Dilma do Planalto resulte em algo positivo, conforme as expectativas de parte dos brasileiros. Ao contrário. O presidente interino não para de limpar os estilhaços e arrastar cadeiras sob os escombros produzidos pelas pautas bombas, que explodem em seu próprio colo, e por gravações de destemidos ex-amigos.

Na prática, o governo interino de salvação nacional micou com a safra de quitação dos acordos fisiológicos. Também, o recheio da massa está contaminado por parasitas quase históricos, alguns já com pedido de prisão pela Procuradoria-Geral da República. O governo Temer segue para o incerto a cada titubeio do chefe interino, que mostra não ter projeto nem condições de sentar-se na cadeira do Executivo da nação. O momento político é ainda mais grave e recai sobre os ombros do Senado uma responsabilidade histórica.

*Márcia Lia é deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores