Opinião: Ninguém inventou, as comunicações flagraram


10/06/2016 16:05 | Abelardo Camarinha*


Sem saber que seus aparelhos telefônicos estavam grampeados por ordem judicial autorizada pela 13ª Vara Federal, de Curitiba, os líderes do governo afastado seguiram marcando reuniões, encontros e trocando ideias por comunicação eletrônica nos últimos meses. Comunicavam-se entre si Dilma, Lula, o ex-ministro Jaques Wagner, Aloízio Mercadante, José Eduardo Cardoso e Rui Falcão, presidente do PT. Nessas conversas ficou explicitado que queriam evitar o impeachment da presidenta, a prisão de Lula, ou influenciar as decisões do judiciário e diminuir o ímpeto das investigações da Lava Jato.

Fartamente noticiadas pela mídia de todos os cantos, pode-se relembrar, por exemplo, a conversa telefônica entre Rui Falcão e Jaques Wagner: "Ministro, procura apressar o foro privilegiado do ex-presidente Lula, porque tem dois promotores de São Paulo "loucos" para pedirem sua prisão preventiva"; entre Dilma e Lula: "Aí Lula! Como vai o senhor? Estou lhe mandando a portaria de nomeação de chefe da Casa Civil pelo "Bessias", só uso se for preciso", ao que Lula responde: "Tá bom, querida", e, nesse telefonema fica clara a tentativa de evitar ação da Polícia Federal, do Ministério Público ou do juiz Sérgio Moro, tentando salvaguardar o ex-presidente; ou ainda Mercadante e advogado de Cerveró: "Diga a ele para não fazer a delação, pois vamos ajudar em tudo, inclusive materialmente. Fale com o amigo Cerveró para refletir melhor", diz Mercadante; Lula e Jaques Wagner: "Galego, diga à presidenta Dilma para falar com a ministra Rosa Weber sobre meu pedido lá no STF. Lá não tem ministro de saco, quem sabe ela tem" e nessa oportunidade, a intenção do telefonema era tirar os processos de Lula da vara federal de Curitiba e mantê-las no STF, onde as coisas caminham mais devagar; Lula e Dilma: "Querida, acertei com vários parlamentares, inclusive o Tiririca. Fique tranquila, vai dar tudo certo"; Lula e seu advogado: "Oi Roberto, o que eu tenho que lhe dizer é que o STF está acovardado, o presidente do senado, Renan, tá "f."! Não tem expressão para enfrentar a República de Curitiba. Eles estão deitando e rolando. Precisa ser feito algo"; e ainda, Delcídio Amaral e dr. Navarro: "Doutor, o senhor é jurista, vai ser nomeado ministro do STJ, mas vai ter que atender um pedido da presidenta, que é conceder o HC (habeas corpus) aos empresários e empreiteiros presos na Lava Jato, em especial o Marcelo Odebrecht, tudo bem?".

Esses diálogos não foram inventados, foram comprovados por grampos autorizados e declarações de testemunhas, mas, na época, nenhum dos implicados foi afastado ou sofreu qualquer tipo de punição.

É lamentável que quadros do governo afastado e alguns do atual, interino, ainda mantenham contatos e diálogos que afrontem os princípios éticos e republicanos. Só que num dos últimos escândalos, o ex-ministro do Planejamento Romero Jucá, nomeado pelo presidente em exercício Michel Temer, pagou com seu cargo e foi execrado pela opinião pública e imprensa. Já outros envolvidos alegam serem vítimas do caso Jucá, como ficou demonstrado com o diálogo, com o indicado pelo PT e PMDB, Sérgio Machado, que permaneceu por 12 anos na Petrobrás, que veio a público. Então, sai a República da Papuda (Penitenciária de Brasília) e entra a equipe dos "Investigados pela Lava Jato".

Deus salve o Brasil!

*Abelardo Camarinha é deputado estadual (PSB)