Protagonismo da mulher, acolhimento e respeito são os pilares do parto humanizado

Lei de 2017 instituiu a Semana Estadual de Incentivo ao Parto Normal e Humanizado
05/05/2021 13:36 | Conscientização | Maurícia Figueira - Foto: José Antonio Teixeira

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Exposição 'Nascer'<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-05-2021/fg266139.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Exposição 'Nascer'<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-05-2021/fg266140.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Dói. Dói, é incômodo, é assustador. Mas se a mulher se sente acolhida e respeitada em suas decisões, é possível parir naturalmente, com segurança. Essa é a ideia do parto humanizado: respeitar e dar condições seguras para mãe e bebê no momento do parto.

No parto humanizado, a protagonista é a parturiente, não o obstetra. Afinal, é ela quem faz o parto, é ela quem sabe se quer ficar em pé, sentada, deitada ou andando.

Ela quem sabe o limite da dor, a hora - talvez - de pedir o anestesista. Ou uma massagem nas costas, ou um banho morno, metodologias não farmacológicas que ajudam a reduzir a dor.

Desde 2017, a Semana Estadual de Incentivo ao Parto Normal e Humanizado é comemorada na primeira semana de maio. A Lei 16.395/2017, que instituiu a data, pretende divulgar o parto humanizado.

"A diferença fundamental está no respeito ao desejo da mulher e do bebê. Pesquisas mostram que, mesmo quando se trata de parto normal, muitos procedimentos adotados são desnecessários e até prejudiciais", afirmou o deputado Rafael Silva (PSB) na justificativa do projeto que deu origem à lei.

O parlamentar prossegue: "O mais importante é o deslocamento do eixo de protagonismo. Enquanto no parto normal ou por cesariana o ator principal é o médico, ou ele e a equipe de saúde, no parto humanizado a protagonista é a mulher e, obviamente, o bebê".

Para a doula Bruna Spitale, a principal característica do parto humanizado é justamente o protagonismo da parturiente. "Um parto humanizado tem como pilar a mulher ser a protagonista daquele cenário. A mulher escolhe o jeito que ela quer parir, a forma que ela quer estar, a posição que tem mais conforto, a forma de alívio que ela prefere, se massagem, se anestesia, o tipo de anestesia", disse. Doulas são profissionais que auxiliam a parturiente desde a gestação até o pós-parto.

Na mesma linha, a obstetriz Thalita Vital Botelho, parteira e gerente técnica da Casa Ângela, Centro de Parto Humanizado que atende pelo SUS na cidade de São Paulo, afirmou que "a equipe está ali assistindo, acolhendo, como um seguro". Caso haja necessidade de intervenção, a equipe deve estar preparada, "sabendo identificar os fatores de risco e as emergências obstétricas e atuando conforme necessário para corrigi-las", disse Thalita.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a taxa ideal de cesárea seria entre 10% e 15% dos partos. Segundo o Ministério da Saúde, em 2015, 57% dos partos realizados no Brasil foram por meio de cesarianas.

A pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz, mostrou que o índice sobe para 88% no setor privado. De acordo com o portal Pebmed, a taxa de cesáreas na Europa é de 25% e nos EUA, 32%. O Brasil ocupa o segundo lugar do ranking, perdendo apenas para a República Dominicana.

A pesquisa da Fiocruz apontou também que as chances de ocorrer um parto normal são maiores quando há suporte adequado à parturiente, como o apoio de enfermeiras obstetras durante o parto. Procedimentos como impedir a gestante de caminhar ou se alimentar na sala de parto e dar à luz deitada dificultam o parto.

Ainda de acordo com a Fiocruz, métodos não farmacológicos para alívio da dor, estímulo à movimentação, liberdade para se alimentar e permitir posição verticalizada na hora de parir tornam o parto menos doloroso.

Preparação

A preparação para o parto humanizado começa na gestação, quando a doula "atua com assistência informativa, de levar informação atualizada, embasada na medicina, em evidências", segundo Bruna. As consultas pré-natais, de acordo com Thalita Botelho, "tornam a mulher dona do seu processo, acolhendo seus medos, suas angústias, orientando essa mulher do que está por vir, de como vai ser esse trabalho de parto". Para Botelho, "tudo isso faz parte da construção desse protagonismo".

Benefícios

A gerente da Casa Ângela afirmou que um dos benefícios do parto normal é a maturidade fisiológica do bebê ao nascer. Ele "libera uma substância no organismo da mãe sinalizando que está pronto, do ponto de vista respiratório, e a mulher entra em trabalho de parto". Segundo a obstetriz, a amamentação também é estimulada com os hormônios produzidos pelo trabalho de parto. Outro benefício apontado por ela é a recuperação, que "acontece de forma mais rápida quando a mulher passa por um parto normal".

Já a cesariana tem "riscos maiores de infecção, de hemorragia pós-parto, e também aumenta a taxa de mortalidade materna", afirmou a obstetriz. "Quando é uma cesariana agendada, que a mulher nem teve a chance de entrar em trabalho de parto, o bebê não deu sinais de que estava pronto para nascer".

Contato pele a pele

Depois do nascimento, a parturiente "tem autonomia para receber seu bebê nos braços, fazer esse contato pele a pele de forma muito prazerosa ainda nessa primeira hora de vida do bebê, estabelecer o vínculo mãe e bebê", disse Thalita.

Apesar dos riscos inerentes a procedimentos cirúrgicos, há casos em que a cesárea é indicada. Segundo a OMS, "a cesárea é uma intervenção efetiva para salvar a vida de mães e bebês, porém apenas quando indicada por motivos médicos".

Exposição

Em março de 2020, quando a Alesp ainda estava aberta a visitações - atualmente suspensas por conta da pandemia - foi realizada a Exposição Fotográfica "Nascer", da fotógrafa Lela Beltrão, com fotos de partos humanizados, que ilustram este texto. A ideia da exposição era dar "uma oportunidade de se abrir, sentir e compreender um novo ponto de vista sobre o nascer", explicou a fotógrafa.