Rede Enxame: evento na Alesp alerta sobre impactos da misoginia digital na política feminina
01/06/2026 17:03 | 2º Festival MEL - Mulheres em Luta | Fernanda Franco - Fotos: Bruna Sampaio
A Assembleia Legislativa de São Paulo recebeu, nesta sexta-feira (29), mais de 100 parlamentares mulheres - entre vereadoras, deputadas estaduais e deputadas federais - de todo o Brasil para um encontro da Rede Enxame. O evento faz parte da abertura do 2º Festival MEL - Mulheres em Luta, que tem programação até este domingo no Cambuci.
Com o objetivo de unir formação e articulação política, a abertura do festival debateu o impacto da misoginia e da inteligência artificial no ambiente online, junto com uma roda de conversa voltada a estratégias de cuidado e fortalecimento de seus mandatos.
A deputada Paula da Bancada Feminista (Psol) ressaltou que a articulação coletiva entre mulheres é uma ferramenta fundamental para enfrentar a violência política de gênero. "O ódio contra as mulheres é uma prática de violência que serve para nos parar e desestimular. Mas, juntas, criamos uma rede que nos torna ainda mais fortes para enfrentar esses desafios", disse.
A parlamentar também destacou que a mobilização conjunta da Rede Enxame tem possibilitado a apresentação de propostas legislativas em diferentes casas legislativas do país de forma unificada. Segundo a deputada, já foram realizados quatro protocolaços nacionais em apenas um ano. Na Alesp, uma das iniciativas resultantes desse esforço coletivo foi a criação do selo Empresa Amiga do Cuidado. "Atuar em rede, atuar em massa também é uma forma de nos fortalecer", disse a deputada.
Misoginia digital
A pesquisadora Marie Santini, fundadora e diretora do NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da UFRJ), apresentou pesquisas que reforçam a preocupação com os impactos da violência digital sobre a participação feminina na política.
Segundo Marie, existe uma cultura de misoginia nas redes sociais que movimenta recursos financeiros, alcança milhões de usuários e influencia especialmente jovens eleitores. Atualmente, 80% dos canais misóginos no Youtube têm pelo menos um recurso de monetização ativo.
Além disso, mulheres que ocupam espaços públicos, como parlamentares e jornalistas, são alvos preferenciais de ataques, difamações e ameaças. De acordo com o levantamento, mulheres na política sofrem 44% mais ataques do que homens, enquanto entre jornalistas o índice chega a 73%.
"Esse cenário cria barreiras concretas à entrada e permanência das mulheres na vida pública", alertou Marie. Ela defendeu a regulamentação das plataformas digitais, com regras que garantam transparência e permitam o acompanhamento das atividades por órgãos fiscalizadores, imprensa e sociedade civil.
A pesquisadora também destacou que estudos produzidos por universidades e organizações da sociedade civil têm contribuído para decisões judiciais e ações de combate à violência política de gênero. "Ter informações que deem sustentação às nossas denúncias políticas é imprescindível", afirmou.
Conexões
A troca de experiências entre lideranças femininas de diferentes regiões do estado foi apontada pelas participantes como um dos principais resultados do encontro. Entre elas, a vereadora de Salto, no interior de São Paulo, Dra. Grazi Costa. Ela destacou que esses momentos ajudam a mostrar que os desafios enfrentados por mulheres na política se repetem em diferentes contextos.
"O que nós sofremos é muito parecido, o que muda são as siglas, o estado, às vezes a cultura, mas o mesmo sentimento", afirmou. Segundo a vereadora, o evento funciona como um espaço de aprendizado, renovação e fortalecimento coletivo. "Vim aqui para aprender e levar um pouco mais de ideias, levar essa força, essa energia, essa vontade de fazer muito mais para a sociedade. Para mim, aqui é renovar as energias", disse.
Lançamento
Ao final do evento teve o lançamento da pesquisa "Mulheres ameaçadas no Brasil: dos feminicídios às cassações de mandatos (2015-2025)" do instituto E Se Fosse Você? - fundado pela ex-deputada federal e jornalista Manuela d'Ávila (Psol).
"Nós precisamos que os parlamentos reajam institucionalmente e não aceitem ter entre os seus quadros pessoas que violentam mulheres, seja no discurso ou seja na prática. Esse precisa ser um pacto do Brasil", afirmou a jornalista.
Ao ser questionada sobre como evitar o desestímulo à participação feminina na política diante do cenário atual, Manuela destacou que o instituto foca em criar redes de proteção mútua enquanto os órgãos públicos falham. "Enquanto o Brasil aceitar representantes homens que agridem mulheres, acham graça da violência política, lucram eleitoralmente e financeiramente com ódio, continuaremos desencorajando novas candidaturas", alertou.
Assista ao evento, na íntegra, na transmissão feita pela TV Alesp:
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