Audiência pública na Alesp debate criação de memorial da ditadura no antigo DOI-CODI
10/06/2026 22:15 | Resgate Histórico | Talis Mauricio - Foto: Rodrigo Costa
A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo recebeu, nesta quarta-feira (10), uma audiência pública para discutir a transformação do antigo prédio do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) em um espaço de memória sobre a ditadura militar brasileira. O encontro aconteceu no Plenário Tiradentes e foi aprovado pela Comissão de Infraestrutura da Casa.
A iniciativa foi proposta pelo deputado estadual Guilherme Cortez (Psol), membro efetivo da comissão. "Hoje, se você passa em frente ao prédio, onde atualmente funciona uma delegacia da Polícia Civil, não há sequer uma placa ou indicação do que aconteceu ali. Isso é um problema grave, porque um país que não conhece sua história está fadado a repetir, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado", afirmou.
A audiência reuniu ex-presos políticos, sobreviventes do regime militar, representantes de movimentos sociais e pesquisadores. A historiadora e coordenadora do Grupo de Trabalho do Memorial DOI-CODI, Deborah Neves, disse que o principal objetivo é viabilizar a transferência do imóvel, atualmente vinculado à Secretaria da Segurança Pública, para permitir a criação de um memorial permanente dedicado à preservação da memória histórica do período.
"Que seja um espaço aberto à participação de toda a sociedade, porque este é um tema de interesse coletivo", afirmou. "O grupo de trabalho já realiza visitas mediadas, pesquisas arqueológicas e atividades culturais desde 2017. O que estamos debatendo agora é a transferência do complexo para a Secretaria da Cultura, para transformá-lo definitivamente em um museu memorial", explicou.
Instalado na Vila Mariana, o DOI-CODI foi um dos principais órgãos de repressão política durante a ditadura militar. Entre as décadas de 1960 e 1980, o local foi utilizado para interrogatórios, prisões, torturas e outras violações de direitos humanos praticadas contra opositores do regime. A estrutura física, composta por quatro edifícios, permanece intacta.
Na audiência, também foi destacada a importância de que o espaço se torne, no futuro, um local de pesquisa, reunindo documentos, relatos e registros históricos, além de promover atividades educativas voltadas à reflexão sobre democracia e cidadania.
"Infelizmente, o nosso país insiste em rejeitar a construção de uma memória coletiva. É assim com a escravidão, com a ditadura militar, com vários processos políticos que o nosso país viveu, estão na nossa história, e que a gente precisa lutar tanto por reconhecimento", afirmou a deputada Paula da Bancada Feminista (Psol), que também participou do encontro.
Sobreviventes do DOI-CODI
Entre os participantes da audiência estava o aposentado Tullo Vigevani, ex-preso político que permaneceu detido no DOI-CODI entre 5 e 25 de agosto de 1970. Hoje com 83 anos, ele destaca a importância da preservação desses espaços para as futuras gerações.
"É muito importante conservar os lugares de memória. As pessoas que viveram aquele período estão desaparecendo. Se não conseguirmos constituir fisicamente essa memória, por meio de documentos, depoimentos e reconstruções históricas, corremos o risco de perder uma parte fundamental da história brasileira e paulista", afirmou.
Vigevani também relembrou o impacto da prisão em sua família. "Meu filho praticamente nasceu no DOI-CODI, porque minha esposa foi presa logo depois de mim, já grávida, e precisou ser liberada temporariamente para dar à luz. São lembranças que nunca desaparecem. Muitas pessoas que passaram por lá carregam sequelas físicas e emocionais para a vida", concluiu.
"Nós que passamos pelo DOI-CODI não somos apenas sobreviventes. Somos também vencedores", afirmou o jornalista e escritor Milton Saldanha, também ex-preso político do DOI-CODI. "O Brasil teve 380 anos de escravidão. Lá estão todas as respostas para o que o Brasil é hoje. E quantos museus da escravidão existem no Brasil? Apagaram a memória", alertou.
Assista à audiência pública, na íntegra, na transmissão feita pela TV Alesp:
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