Casa Guilherme de Almeida conta relação do 'poeta de 32' com a identidade de São Paulo
08/07/2026 18:50 | História paulista | Louisa Harryman - Fotos: Acervo Pessoal / Arquivo da Prefeitura de Campinas/ Rodrigo Romeo/
Na Zona Oeste da capital paulista, próximo ao Estádio do Pacaembu e à Praça Charles Miller, uma casa guarda memórias importantes do Estado de São Paulo. A residência que serviu de moradia ao poeta Guilherme de Almeida e sua esposa Belkiss "Baby" de Almeida entre 1946 e 1969, agora recebe visitantes para conhecer mais sobre o poeta e sua relação com a história do estado.
Chamada de "Casa Guilherme de Almeida", a construção é um museu desde março de 1979. Distribuído em três andares, o acervo conta com obras de arte, fotografias, livros, edições de jornais e mobiliário pertencentes ao artista.
Entre os itens expostos, estão memórias do estado que ele ajudou a formar a identidade e participou ativamente de um dos principais momentos históricos, a Revolução de 32. O movimento, liderado por São Paulo, se opunha ao governo do então presidente Getúlio Vargas e pedia uma nova Constituição para o Brasil. A revolta teve início em 9 de julho de 1932, data escolhida para celebrar anualmente o marco da luta paulista.
A supervisora de pesquisas da Casa, Mariana Hangai, defende que os museus-casa são oportunidades de olhar para a história a partir de um lugar novo e intimista. Para ela, a visita permite "complexificar um pouco mais essa figura, poder olhar a partir de outros ângulos que são menos óbvios, que ultrapassam a figura pública".
O museu é administrado atualmente pelo Instituto Poiesis (Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura). A organização também é responsável pela Casa das Rosas, na Avenida Paulista, e pela Casa Mário de Andrade, localizada na Barra Funda.
Modernismo paulista
Guilherme de Andrade de Almeida nasceu em 24 de julho de 1890, em Campinas, e passou parte da infância entre Limeira, Araras e Rio Claro. Poeta, jornalista, tradutor e ensaísta, transitou por diferentes áreas da comunicação e se consolidou como um dos principais nomes do modernismo brasileiro.
Em 1922, ele atuou ativamente na realização da Semana da Arte Moderna, uma das principais manifestações culturais da história brasileira. O evento marcou o início de novas tendências artísticas e da arte moderna no país, com a participação de grandes nomes como Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Mário de Andrade e Di Cavalcanti.
Uma década depois, quando a Revolução Constitucionalista teve início, Guilherme já era uma figura importante do campo cultural paulista. "Ele já era reconhecido como jornalista, poeta, tradutor, crítico de cinema, uma atuação muito diversa", explica Mariana.
Poeta da Revolução
O poeta se voluntariou para participar diretamente nos combates contra as tropas federais. Junto com o seu irmão Tácito de Almeida, integrou o 1º Batalhão da Liga da Defesa Paulista, na chamada "tropa dos doutores", sediada no município de Cunha.

Granada de mão, fuzil e capacete de metal utilizados na Revolução
No entanto, a supervisora de pesquisas conta que o seu papel principal não foi militar, e sim na construção do imaginário ligado à Revolução de 32. "É um movimento que transborda o próprio campo de batalha e vai para uma construção de memória, de identidade paulista. E o Guilherme é uma figura que, durante toda a vida, teve essa atuação muito ligada à questão cívica", diz.
Uma das suas contribuições foi como redator-chefe do Jornal das Trincheiras, folhetim sobre a Revolução distribuído entre agosto e setembro de 1932. O acervo do Museu guarda os 13 números do periódico distribuído nas áreas de combate para explicar os motivos da resistência paulista.
Guilherme também escreveu várias obras que exaltam São Paulo. Entre elas, o poema Nossa Bandeira, em homenagem à bandeira do estado; Moeda Paulista; Oração Ante A Última Trincheira; O Passo do Soldado, que se tornou uma marcha cívica composta por Marcelo Tupinambá; e Prece a Anchieta.
O poema Hino dos Bandeirantes, escrito por Almeida, se tornou o hino oficial do estado em 1974. Além disso, ele foi o responsável pelos brasões da cidade de São Paulo, do município paulista de Registro e da capital do país, Brasília.

Brasão de São Paulo
Após o fim da Revolução, Guilherme se exilou em Portugal até 1933. Durante o período fora, se dedicou a escrever crônicas, reunidas no livro O Meu Portugal.
Depois da Revolução
Outro grande momento de destaque da participação do poeta na história paulista foi o Quarto Centenário de São Paulo, em 1954. Guilherme fez parte da Comissão Organizadora das festividades do 400º aniversário da cidade, que contaram com a inauguração do Parque Ibirapuera e do Monumento às Bandeiras.
"A relação do Guilherme com a Revolução não se encerra em 1932. Permanecia o exercício constante de revisitar esse projeto de construção de memória. O quarto centenário da cidade foi um momento que isso veio muito à tona", explica Mariana.
Em 1955, foi inaugurado o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32. O monumento funerário é um projeto do escultor ítalo-brasileiro Galileo Emendabili e tem poemas e frases de Guilherme de Almeida inscritas nas quatro fases.
"Aos épicos de julho de 32, que,
fiéis cumpridores da sagrada promessa
feita a seus maiores - os que
moveram as terras e as gentes por
sua força e fé - na lei puseram sua
força e em São Paulo sua Fé."
O mausoléu do Obelisco abriga os corpos dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (o M.M.D.C.), mortos durante a Revolução do ano de 1932, e de mais de 700 outros ex-combatentes. Guilherme de Almeida também foi sepultado no monumento após sua morte, em 1969.

Projeto do Obelisco exposto na Casa Guilherme de Almeida
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