Maio Furta-Cor amplia debate sobre saúde mental materna e reforça importância do acolhimento às mães
27/05/2026 23:34 | Saúde Mental | Talis Mauricio - Foto: Divulgação/Arquivo Alesp
Quando Patrícia Lafuria teve a filha do meio, Pietra Mutti, hoje com 28 anos, não imaginava que enfrentaria um dos momentos mais difíceis da vida. Mãe de cinco filhos, foi nesse período que começou a lidar com sintomas de depressão pós-parto, numa época em que a saúde mental materna ainda era pouco discutida. Não havia informação, acolhimento ou apoio psicológico.
"Eu sentia uma tristeza profunda, um vazio constante, crises de choro, medo, ansiedade e um cansaço emocional muito grande, mas não entendia o que estava acontecendo comigo", relembra Patrícia, que hoje atua como psicanalista e assessora parlamentar. "O mais angustiante era justamente não conseguir compreender aqueles sentimentos, porque a maternidade sempre foi apresentada como um momento exclusivamente feliz", aponta.
Segundo Patrícia, um dos maiores desafios daquele período foi enfrentar o sofrimento emocional sem conseguir falar abertamente a respeito. Naquela época, lembra ela, final da década de 1990, ainda existia uma pressão silenciosa para que a mulher continuasse forte o tempo inteiro, mesmo emocionalmente fragilizada, cuidando da casa, da família e dos filhos.
"Muitas mães sofriam caladas por medo de julgamento e vergonha. A mulher precisava apenas suportar tudo sozinha", recorda. "Hoje eu entendo que precisava desesperadamente de ajuda e acolhimento, mas naquela época nem eu mesma sabia identificar aquilo como um problema emocional", reconhece.
E foi justamente pensando na necessidade de ampliar o debate e fortalecer políticas públicas voltadas ao tema que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou, e o Governo sancionou, a Lei 17.937/2024. A medida, que acaba de completar 2 anos, instituiu no calendário oficial paulista o Maio Furta-Cor, mês de conscientização e incentivo ao cuidado da saúde mental materna.
A iniciativa busca dar visibilidade ao tema e promover ações de conscientização sobre os desafios enfrentados pelas mulheres durante a gestação, o pós-parto e toda a jornada da maternidade. O nome da campanha faz referência à tonalidade "furta-cor", que muda de acordo com a luz recebida, uma analogia às múltiplas emoções e transformações vividas pelas mães. "Simboliza as inúmeras emoções vividas pela mulher nesse período: amor, medo, alegria, insegurança, exaustão, esperança e dor", explica Patrícia.
A lei é de autoria do deputado estadual Capitão Telhada (PP), com coautoria das deputadas Marina Helou (PSB) e Letícia Aguiar (PL).
"Ter o mês Maio Furta-Cor no calendário oficial de eventos do Estado de São Paulo é uma forma de lembrar que inúmeras famílias enfrentam, e já enfrentaram, questões relacionadas à saúde mental materna. A minha família sentiu isso na pele, e esse assunto precisa de visibilidade", afirmou o parlamentar. "Precisamos falar sobre mães que passam por depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, psicose pós-parto e tantas outras condições. A campanha Maio Furta-Cor contribui para que esse tema seja visto e debatido, permitindo que mais pessoas tenham acesso à informação, reconheçam os sinais e procurem ajuda", completou.
Para Patrícia, a aprovação de uma lei voltada a algo que tanto a marcou representa não só acolhimento e conscientização, mas esperança para milhares de mulheres. "Durante muitos anos, mães sofreram caladas, sem informação e sem compreender o que estavam vivendo emocionalmente. Quando o poder público reconhece oficialmente a importância da saúde mental materna, ajuda a salvar vidas, fortalecer redes de apoio e incentivar políticas públicas voltadas ao acolhimento emocional das mães", afirmou.
Sinais de alerta
A saúde mental materna, também chamada de saúde mental perinatal, está ligada ao bem-estar psicológico da mulher. Engloba desde o planejamento reprodutivo, passando pela gestação e o pós-parto, até o primeiro ano após o nascimento do bebê. É um período que envolve profundas transformações físicas, hormonais, emocionais e sociais, o que pode aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos mentais.
Dados citados pela Associação Maio Furta-Cor, com base em levantamentos nacionais e internacionais, apontam que 25% das gestantes apresentam sintomas de depressão durante a gravidez, enquanto 30% das mulheres no puerpério enfrentam sintomas depressivos após o parto. Ainda assim, a maior parte (82% dos casos) permanece sem diagnóstico ou tratamento adequado.
Apenas no território brasileiro, essa porcentagem representa cerca de 860 mil mulheres afetadas anualmente por quadros como depressão, ansiedade e outros transtornos relacionados à maternidade.
"A gente precisa ampliar essa visão do cuidado da saúde mental das mulheres já desde a gestação. Isso passa por levar informação de qualidade para a sociedade e também por capacitar os profissionais de saúde para reconhecerem os sinais de sofrimento emocional", explica a psicóloga perinatal Paula Roberta Garcia, referência no assunto.
De acordo com a especialista, fatores como histórico de depressão ou ansiedade, gravidez não planejada, ausência de rede de apoio, dificuldades financeiras, violência doméstica e perdas gestacionais anteriores já valem como importantes sinais de alerta durante o pré-natal. "A partir daí, acompanhamos sinais emocionais como tristeza persistente, choro frequente, sensação de vazio, irritabilidade intensa e até sentimentos de arrependimento em relação à gestação. São sinais que precisam ser acolhidos tanto pelos profissionais quanto pela família", afirma.
Entre os sintomas mais comuns da depressão perinatal e da depressão pós-parto estão tristeza persistente, ansiedade excessiva, sensação constante de culpa, desânimo, alterações importantes no sono e no apetite, cansaço extremo e isolamento social. Em alguns casos, a mulher também pode apresentar dificuldade em criar vínculo com o recém-nascido.
Garcia ressalta que o momento adequado para buscar ajuda é quando a mulher percebe que algo não está bem emocionalmente. "O sofrimento emocional no puerpério tem muitas faces. Nem sempre a mulher vai rejeitar o bebê ou demonstrar claramente que está adoecendo. Muitas vezes ela apenas se sente incapaz, frustrada, esgotada ou completamente perdida", explica.
A psicóloga também faz um alerta para pensamentos recorrentes relacionados à morte, autolesão ou agressão à criança, considerados sinais de emergência emocional. "Isso não torna essa mulher uma má mãe. Isso a torna uma mulher que está sofrendo e que precisa e merece cuidado imediato", ressalta.
A boa notícia é que a depressão perinatal tem tratamento e pode ser acompanhada de bons resultados quando identificada precocemente. As principais abordagens incluem psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico quando necessário, uso de medicamentos compatíveis com a gestação e amamentação, além do fortalecimento da rede de apoio familiar e social.
Outro ponto destacado por Paula Roberta Garcia é a necessidade de romper com a romantização da maternidade, o que muitas vezes dificulta o pedido de ajuda. "O mito da mãe perfeita faz com que muitas mulheres acreditem que precisam dar conta de tudo sorrindo. Quando a realidade da maternidade não corresponde à expectativa criada socialmente, surgem culpa, frustração e sofrimento emocional", afirma.
Para a especialista, acolhimento, escuta qualificada e políticas públicas permanentes são fundamentais para prevenir o agravamento dos quadros de adoecimento materno. "Cuidar da saúde mental materna não é cuidar apenas da mãe. É cuidar do bebê, da família e de toda a sociedade", conclui.

Assunto de homem
A discussão sobre saúde mental materna não envolve apenas as mulheres. Pesquisadores do tema são categóricos ao defender que o cuidado também passa pela participação ativa dos parceiros homens.
A mesma linha de raciocínio é defendida pela deputada estadual Marina Helou (PSB), coautora da Lei 17.937/2024. "Não existe cuidado se a gente não incluir os homens nessa equação. Não tem como a mulher sustentar tudo sozinha. Incluir os homens no cuidado é fundamental para a saúde mental materna, para o desenvolvimento saudável das crianças e para a responsabilização dos homens pela vida", afirmou.
A parlamentar também alerta para os impactos que o sofrimento emocional materno pode causar no desenvolvimento infantil. "Quando a gente negligencia essas mulheres, também negligencia essas crianças e esses bebês. A falta de saúde mental materna tem impacto direto no desenvolvimento saudável, cognitivo e afetivo das crianças", completou.
A psicóloga perinatal Paula Roberta Garcia concorda e afirma que ainda existe uma cultura que atribui exclusivamente às mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado: "Precisamos romper com a ideia de que essa responsabilidade é exclusivamente da mulher. A saúde mental materna é uma responsabilidade compartilhada, e cada pessoa ao redor dessa mãe tem um papel concreto".
Garcia defende uma mudança cultural na forma como a paternidade é encarada. "Ainda existe a ideia de que cuidar é coisa de mulher, de que o homem apenas ajuda. Homens são completamente capazes de cuidar e precisam ser convocados para isso desde a gestação", ressaltou.
Campanhas
Campanhas de conscientização têm papel importante para ampliar o debate sobre saúde mental materna. Uma das principais iniciativas é promovida pela Associação Maio Furta-Cor, organização da sociedade civil sem fins lucrativos criada para fortalecer ações de acolhimento, conscientização e formulação de políticas públicas voltadas ao tema.
A entidade reúne profissionais da saúde, mães, pesquisadores, gestores públicos e instituições em torno da defesa da saúde mental materna como uma pauta estruturante de saúde pública. Atualmente, o movimento está presente em todo o Brasil e em mais de 15 países, com cerca de 245 representantes.
A campanha funciona de forma descentralizada, gratuita e colaborativa ao longo de todo o ano, com intensificação das atividades durante o mês de maio. Entre as ações promovidas estão rodas de conversa, palestras, audiências públicas, caminhadas, mamaços, formações técnicas e produção de conteúdos educativos voltados ao acolhimento e à informação.
Para as fundadoras da campanha, Patricia Piper e Nicole Amorim, um dos objetivos é transformar o cuidado com a saúde mental materna em uma política pública permanente. "A saúde mental materna ainda é tratada de forma fragmentada no Brasil. É fundamental incorporar o cuidado em saúde mental materna dentro da rede pública de atenção perinatal, desde o pré-natal até o pós-parto, incluindo rastreio sistemático para depressão, ansiedade, sofrimento psíquico e violência", afirmaram.
As campanhas da associação, ainda segundo as fundadoras, já contribuíram para a aprovação de mais de 250 legislações relacionadas à saúde mental materna em municípios e estados brasileiros, incluindo São Paulo.
Além da mobilização política, a campanha também atua diretamente no acolhimento emocional de mães e famílias. "Muitas mulheres relatam que foi a primeira vez que conseguiram falar sobre sofrimento materno sem culpa ou julgamento. Existe algo muito potente quando uma mãe percebe que não está sozinha", destacaram Patricia Piper e Nicole Amorim.
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