FuncionAL - Com vocês, Tânia


24/07/2018 19:26 | Entrevista | Marina Mendes - Fotos: Raphael Montanaro

Tânia Mendes<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-07-2018/fg226261.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Tânia Mendes<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-07-2018/fg226262.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Tânia Rodrigues Mendes: difícil resumir. Icônica dentre os funcionários da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, nada é simples em relação a uma pessoa com tantas paixões, conhecimentos e artes. Tânia é um universo.

Graduada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) em 1974, com especialização em Biblioteconomia e Documentação, sempre atuou com gestão da informação e do conhecimento. A partir de 1987, trabalhou com informação estratégica, que define como "a relação entre uma necessidade e uma capacidade de responder, isto é, identificar tendências".

"Sempre me interessei por processos de busca, análise, tratamento e uso de informações para pesquisas e estudos. São conhecimentos estratégicos para tomada de decisões sobre políticas públicas, avaliação da efetividade de objetivos institucionais e fiscalização e controle da Administração Pública. Além disso, embasam a articulação entre os diferentes interlocutores desses processos", explicou.

Antes de chegar à Alesp, Tânia foi diretora da biblioteca da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (Eaesp/FGV), de 1975 a 1986. Em 1982, ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Estudos da Informação (Sobei).

Alesp

Entrou na Assembleia Legislativa de São Paulo várias vezes, por diversas portas. Entre 1987 e 1991, foi assessora do então deputado José Dirceu, no processo de elaboração da Constituinte estadual pós-ditadura militar.

Após um período atuando como consultora especial do então vereador paulistano Juarez Soares, Tânia retornou à Alesp como assessora especial no gabinete de Rui Falcão, até 1998 " tendo sido coordenadora da assessoria técnica da bancada do Partido dos Trabalhadores em 1995.

A partir de 1998, trabalhou como funcionária efetiva (agente técnico legislativo) na Alesp. Secretária da Comissão de Fiscalização e Controle (CFC), Tânia foi também diretora do Departamento de Comissões. "Em 2007, fui convidada pelo Secretário Geral Parlamentar para ser diretora do departamento. Embora tivesse estudado muito e gostasse muito da parte de instrução do processo legislativo, isso nunca havia passado pela minha cabeça. A instrução é a fase em que se trabalha com a informação, é quando se traz a população. Eu sempre estive nessa área", disse.

Representante dos funcionários da Alesp no Instituto do Legislativo Paulista (ILP) por duas vezes, entre 2002 e 2005, foi também sua diretora executiva. "O ILP não é uma escola do Legislativo, é um instituto de pesquisas e estudos para monitorar o índice de responsabilidade social. É um órgão estratégico, importante nesta Casa", explicou.

Trabalhando também com a implantação das leis de acesso à informação pública, coordenou o Comitê Executivo do Portal da Alesp de 2005 até 2017. "Todo mundo quer fazer igual ao site da Assembleia Legislativa de São Paulo " porque ele não tem custo extra", disse.

"Trata-se da Alesp virtual. Seu modelo conceitual é a integração da informação, que o portal captura e exibe. Os sistemas da Casa alimentam o portal em tempo real. O Departamento de Comunicação traduz para a população, por isso há uma área de notícias", explicou.

Sobre sua relação com o Parlamento paulista, Tânia declarou: "Independentemente de todos os problemas que possa ter, a Assembleia Legislativa é um lugar muito bom. Sou parlamentarista, acho que o Brasil se resolve com o parlamentarismo. Isso não tem nada a ver com a qualidade dos parlamentares " as pessoas confundem as coisas. Ninguém chegou onde chegou porque deus quis, chegou porque teve voto. O Parlamento pode produzir um bom governo porque é o lugar, por excelência, onde podem ser feitos os acordos na sociedade, os acordos estratégicos".

Tânia comentou as mudanças da Assembleia Legislativa depois da transmissão dos debates. "As discussões em plenário e nas comissões antes e depois da transmissão pela tevê são completamente diferentes. Com o tempo, o debate passou a ser feito para o telespectador, e menos efetivamente para o debate político " isso em todos os parlamentos, não só na Alesp. Fica mais difícil suspender sessões para fazer acordos, por exemplo. É uma contradição: ao mesmo tempo em que se transmite o tempo todo, os debates aprofundados deixaram de ser públicos. É do metabolismo do parlamento que se façam acordos, substitutivos e emendas. Produzir um consenso entre partes divergentes da sociedade, o acordo possível, é da natureza do parlamento."

Política e ditadura

Sobre as atividades políticas, Tânia contou que participou do movimento estudantil desde o colegial. "Na então Escola de Comunicações Culturais (hoje ECA/USP), estudei com José Possi Neto, Ethevaldo Siqueira, Regina Duarte, Ismail Xavier, então fui muito privilegiada. Depois fui diretora do DCE da USP, entre 1969 e 1971. Quando veio o Ato Institucional 5 (AI5) foi horroroso, as pessoas tiveram de ir embora mesmo, foi terra arrasada. Acabaram com todos os centros acadêmicos, não tinha mais nada. Todo mundo ou estava preso, ou estava fora, ou estava com medo".

"Durante aquela confusão, eu fazia um estágio na Pirelli (e a Pirelli não é pneu, é cobre), mexia com toda a parte de informação, de gerência de marketing. A empresa recebia os documentos da repressão, recebia o que era pego com as pessoas, e foi lá que eu vi o plano estratégico do governo Geisel, que não era público. Tinha 20 volumes, os caras haviam levantado mesmo muita informação! Na empresa eram feitas previsões de manifes­tações, assaltos a banco etc", contou.

Procurados como subversivos pelo governo militar, no início da década de 1970 ela e o marido Gabriel Prado Mendes foram morar no interior do estado do Mato Grosso. Sobre as experiências vividas durante um ano, Tânia relatou: "É esse fundão de Brasil, né... Você chega lá e sabe alguma coisa, então até parto eu fiz. Nunca tinha feito um parto, mas sabia como acontecia, sabia que precisava de higiene. Meu marido ficou doente e passou um tempo com os índios Guarani. A gente descobriu que no Brasil as coisas acontecem na cidade. O país é muito grande, sempre foi um fundão " e as coisas que acontecem nos centros urbanos não estão acontecendo lá".

"Estávamos sendo perseguidos pela repressão, fomos presos em 1973. Fiquei 11 meses presa. Essa história toda está disponível na tese da Maria Cláudia Badan Ribeiro (Experiência de Luta na Emancipação Feminina: mulheres na ALN), da USP. Em 2011, ela descobriu que havia muitas mulheres vivas que participaram da ALN. Nota: em 1969 ainda não havia movimento feminista. Nós fomos aquelas mulheres que saíram dos anos dourados da década de 1950 e caíram direto, sem escala, na luta. Quem lê a obra do Mariguella entende que a ALN era uma frente, que propunha a redemocratização do país e melhorias da educação. Eu nunca participei de grupo de fogo, da luta armada. A repressão ficou muito forte, muita gente morreu".

Tânia avaliou: "Claro que é horroroso ser preso, isso é a pior parte. Agora, não me arrependo do que fiz. Não há arrependimento. Houve erros e análises erradas, mas eu critiquei lá atrás. Na hora que caiu aquele plano estratégico nas minhas mãos, a primeira coisa que fiz foi dizer: "Gente, os caras já mapearam tudo, a gente tem um certo nível de ingenuidade aqui!". É por isso que uso muito a frase do Tom Jobim: "O Brasil não é um país para principiantes" " em nenhuma área".

E sobre a repressão e suas conse­quências, resumiu: "Ninguém tem noção do que é uma ditadura, interferia até nas coisas mais bobas das vidas das pessoas. O fato é que havia todo um movimento acontecendo que a ditadura cortou completamente " culturalmente, perspectiva de vida mesmo. Acho que se não tivéssemos passado por isso, estaríamos em outra situação em matéria de educação. Não estaríamos vivendo isso hoje, essa carência de educação, essa falta de cidadania. As pessoas estão desinstrumentadas para a vida".

Para Tânia Mendes, as pessoas perderam a capacidade de analisar os seus próprios erros. "Elas perderam esse hábito e estão colocando o erro sempre no outro. É uma coisa que me faz muito feliz quando consigo corrigir um erro ou um defeito meu", concluiu.

Atividades

"Fui jornalista durante um tempo, tinha uma coluna estudantil no Repórter, em Santo André " que veio a se fundir com outro jornal e formou o Diário do Grande ABC. Depois trabalhei na Gazeta, e foi aí que descobri que não queria ser jornalista, porque eu escrevia uma coluna feminina", falou.

Na década de 1970, Tânia trabalhou na edição de várias revistas. Dentre elas, a Cinema (da Fundação Cinemateca Brasileira, entre 1974 e 1975), a Palavra-chave e a Polichinello. "Cheguei a participar de publicações junto com a Lygia Fagundes Telles e o Paulo Emílio Sales Gomes", disse.

"Sou atriz também, fiz teatro um monte de tempo. Era natural, os artistas vinham e se organizavam, não havia ninguém por trás. Hoje ficou tudo muito estruturado, isso cerceia um pouco a criatividade. Fui muito privilegiada, vivi um período borbulhante. Você podia sair propondo e fazendo coisas. Eu dei o nome pro grupo União e Olho Vivo, do César Vieira", relatou.

Em 1973, participou ao lado de Marcos Caruso da peça Rei Momo, encenada em um circo instalado em São Paulo. "O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) chegou e derrubou o circo. Eu fui presa saindo, com a roupa do personagem", lembrou. De 1975 a 1978, participou do grupo de teatro Núcleo, encenando A Epidemia.

Reflexões

"Sou de um tempo e de uma família em que você tinha de estudar para ser gente, não para ter um salário bom. Os pais queriam que você estudasse para ser alguém na vida, não necessariamente para ganhar bem", resumiu como explicação para seus tantos interesses.

"Não tenho prazer em coisas como cozinhar. Gosto de fazer trabalhos manuais. Não termino nenhum (risos), mas gosto de fazer tudo: costuro, bordo, faço cerâmica... Gosto muito de plantar, mexer com terra", contou.

E complementou: "Em qualquer lugar em que esteja, você tem de procurar o grupo com que tem afinidade. Não sou de boteco. Isso de cerveja em boteco ou churrasco aos sábados não me faz feliz, não consigo me achar. Prefiro sair assim... tomar um café... vamos conversar... Sou pessoa de "petit comitê". Gosto muito de uma conversa, de coisas serenas... Não preciso viajar, não sou de grande consumo, não sou uma pessoa de ter. O que me faz feliz é estar bem comigo mesma, gostar de mim, conversar com as pessoas, ter projetos, ter sonhos, raciocinar, ouvir música " que eu gosto muito ", ir ao teatro, ao cinema, enfim... Mas fundamentalmente estar ao lado de pessoas com quem eu compartilho a vida: isso me faz muito feliz".

Tânia Mendes contou que se sente realizada. "Não sou muito difícil de fazer feliz. Sempre fiz mais ou menos o que quis fazer, tive prazer nas coisas que fiz aqui e fora daqui. Eu sou feliz com aquela frase: "A gente não perde os sonhos porque envelhece, a gente envelhece porque perde os sonhos", do Gabriel Garcia Márquez".

O que é a Alesp para Tânia?

"Primeiro, gosto muito das pessoas que estão aqui. É um espaço público, as pessoas transitam aqui; isso muda de figura em outros parlamentos. Como projeto de vida, foi muito bom " tanto o que fiz aqui, como o que me permitiu fazer lá fora. E também por contatos de pessoas, porque eu sou meio movida a projetos, a sonhos. Eu preciso ter sonhos", disse. E mais: "É um lugar em que você pode apresentar e discutir ideias. É difícil ter isso em uma organização. A Alesp tem gente muito boa. Como toda organização, tem um monte de problemas " mas eu não sou aquele tipo de pessoa que diz "isso aqui não funciona porque é uma casa política". Sim, eu espero que seja! A casa é política, é para funcionar por ser política; isso não é um defeito, é uma qualidade. Então, para mim, foi uma experiência muito boa. Sempre é".